10 - A Grande Mãe

Erik Wallar

*Recomendado para maiores de 18 anos.

Por Helya Porvoon

Assim que os dolorosos gritos de minhas irmãs se iniciaram a nevasca cessou e o céu se iluminou com uma lua que eu jamais tinha visto.

Cheia, avermelhada, imensa, parecia prestes a tocar o solo, era o prenúncio de que aquela noite não seria como nenhuma outra.

Em meio à cânticos centenários, que destoavam da dor que sentiam, chegara o tão esperado momento de darem à luz.

A conjunção de astros daquela noite havia sido prevista há muitos anos e não foi mera coincidência os três meninos nascerem, juntos, naquela data.

Eram crianças lindas, fortes e espertas, as únicas criaturas do sexo masculino cuja presença era permitida no templo, onde viveram conosco até completarem dez anos de idade.

A concepção se deu em um ritual secreto, cujos pais jamais soubemos a identidade, realizado por um juramento que Egla, nossa Grande Mãe, havia feito ao poderoso Senhor de uma casa distante dali.

Nos afeiçoamos muito àqueles pequeninos e ainda me recordo da tristeza que se apoderou de todas nós quando chegou o momento de partirem.

A tristeza pairou sobre o templo durante muitos dias, ele parecia estar vazio.

O tempo seguiu seu curso e enfim chegou o dia de nossa Grande Mãe partir. Ela então serviria diretamente ao deus Alfadur, o incriado infinito, a quem nos dedicávamos.

Seguindo as leis do templo a irmã de mais idade assumiu seu papel e quem teve tal honra foi Ayzel, conhecida por sua calma e paciência.

Mais alguns anos se seguiram até descobrirmos que nosso destino estava prestes a mudar. Foi durante uma Cerimônia de Revelação que tivemos a chocante visão: nosso amado templo seria destruído por uma tormenta sem igual.

Alfadur nos orientou a deixarmos aquele que sempre fora nosso lar, porém, algo importante deveria ser feito antes de partirmos: a realização do Ritual da Sacramentação, um ritual obscuro, de conhecimento apenas da Grande Mãe.

Iniciamos os preparativos na manhã seguinte e Ayzel, a Grande Mãe, seguiu viagem em sua égua branca alegando ir buscar o que era necessário para que o ritual fosse realizado.

Estávamos apreensivas quanto à sua demora e um misto de alívio e surpresa nos invadiu quando, passados três dias, no início da noite, ela retornou.

Mas não sozinha, três machos a acompanhavam.

Raríssimas foram as vezes em que machos adentraram nosso templo e a última havia sido há muitos anos, quando se deu a concepção dos nossos saudosos meninos.

Estávamos enfileiradas à entrada recepcionando-os e ainda me recordo do sentimento de medo e excitação que tomou conta de todas quando eles, encapuzados, enormes, fortes, passaram montados em garanhões negros sem sequer olharem para nós.

Seguiram diretamente para uma construção destinada à visitantes que, embora sempre estivesse vazia, era confortável e mantida limpa.

O Ritual da Sacramentação ocorreria ainda naquela madrugada e fomos instruídas pela Grande Mãe quanto aos seus detalhes, bastante peculiares.

A lua já seguia alta quando todas nos reunimos no salão principal, iluminado somente pelas bruxuleantes chamas das tochas.

Nuas, usando somente máscaras de ouro, nos enfileiramos, lado a lado, altivas, como sacerdotisas que éramos, ainda que castigadas por um frio implacável, aguardando a chegada da Grande Mãe.

Somente as três irmãs impuras trajavam vestidos negros e, ajoelhadas do lado oposto do espaçoso salão, estavam de costas para nós, alheias a tudo.

A Grande Mãe chegou, beijou as mãos de cada uma de nós, solenemente, e seguiu até o trono de Alfadur, assumindo sua posição.

Logo ela passou a recitar uma oração que desconhecíamos, mas que repetíamos ao final de cada frase, fazendo com que nossas vozes ecoassem, repetidamente, até que atingimos uma espécie de transe.

Então as orações cessaram, o silêncio dominou o local, e um estrondo foi ouvido. Era a enorme porta principal sendo aberta, dando passagem aos três machos.

Trajando roupões escarlate e máscaras negras passaram por nós como da primeira vez, sem nos olhar, e seguiram até o trono, ajoelhando-se diante da Grande Mãe.

Algumas palavras foram ditas e os três se levantaram para, enfim, olharem para nós.

Minha respiração se tornou ofegante quando, para surpresa de todas, eles deixaram seus roupões caírem e pudemos admirar seus belíssimos corpos.

Seriam todos os machos sobre a Terra tão perfeitos como aqueles três?

Juntos eles passaram a caminhar, olhando minhas irmãs da cabeça aos pés, admirando, analisando, comunicando-se através de olhares e sutis movimentos com a cabeça.

Eu, de relance, observava-os se aproximando, lentamente, olhando para cada uma, e qual foi minha surpresa quando eles pararam bem à minha frente.

Novamente houve a troca de olhares entre eles e, enfim, um sinal positivo com a cabeça.

O perfume daquelas criaturas me fazia tremer, nunca havia sentido nada semelhante, aquele cheiro, aquele sentimento...

- Helya! – anunciou a Grande Mãe.

Dei um passo à frente, aproximando-me dos três.

Enquanto ela vinha em nossa direção os olhos dos machos eram como os de feras prestes a devorarem sua presa.

Pela mão, como uma criança, a Grande Mãe me conduziu até o altar cerimonial, do outro lado do salão, no que fomos seguidas tanto pelos machos quanto pelas demais irmãs.

Assim que me deitei todas se ajoelharam, formando um círculo ao redor, permanecendo em pé somente os machos e a Grande Mãe, que apanhou um reluzente punhal da cintura, fazendo-me ficar apavorada.

Ela veio até a cabeceira e pôs a mão esquerda sobre minha testa, iniciando novas orações, sendo acompanhada pelas minhas irmãs.

Elas se repetiram incontáveis vezes, minha excitação estranhamente parecia aumentar, mas um torpor foi tomando conta do meu corpo e percebi que inexplicavelmente não conseguiria me mover, se assim quisesse.

Surgiu então uma sombra aos meus pés, que logo veio sobre mim, era um dos guerreiros, seu cheiro o denunciou, e fortes mãos agarraram minhas coxas, algo que nunca antes sentira.

Ele as afastou, expondo minha sexualidade, permitindo que o ar frio me tocasse, mas logo o calor e a brutalidade de um membro vigoroso preencheu meu ser, me aquecendo, machucando, enlouquecendo.

Não houve delicadeza alguma, um toque sequer, apenas a penetração e as estocadas furiosas de um macho de corpo lindo, rude, cujos olhos por detrás da máscara estavam repletos de desejo.

Pensei em erguer as pernas para facilitar o ato, talvez diminuir a dor ou obter mais prazer naquilo, mas não consegui, estava paralisada.

Por vezes senti minha cabeça girar... As vozes ecoando em meus ouvidos, os gemidos daquele macho, a dor, a excitação, o frio, seu calor...

Logo o senti se derramar dentro de mim, entre gemidos e grunhidos, para então entender que ele não seria o único. Assim que me abandonou o segundo guerreiro já me invadia, ainda mais fervorosamente, para me possuir com a mesma volúpia.

Sentia uma excitação para mim até então inimaginável, ainda que a dor fosse grande o desejo se sobrepunha à ela, e eu, mesmo paralisada, podia aproveitar um pouco daquilo.

Com o canto dos olhos observei as irmãs, percebi em seus olhos o desejo que as consumia e a inveja que sentiam por eu ser possuída por machos deliciosos como aqueles.

Foi então a vez do terceiro, um pouco menos raivoso, mas também frio e mais dotado, me invadir e logo se derramar dentro de mim, como os demais.

As orações enfim se findaram e mais uma vez o silêncio tomou conta.

Os três machos se aproximaram da Grande Mãe, ela retirou a mão da minha testa e suspendeu o punhal que tinha na outra, murmurando algumas palavras.

Em seguida foi feito um corte no pulso de cada um dos machos e eles, para minha surpresa e asco, me fizeram beber seu sangue.

Meu corpo todo estremeceu incontrolavelmente, perdi a consciência.

Despertei já na minha cama, na manhã seguinte, sob o olhar preocupado de minha irmã Miréia, que me recebeu com um sorriso.

- Irmã, estás bem? – ela me acariciou o rosto.

- Sim... – respondi antes de tentar me levantar e perceber a dor que sentia entre as pernas.

- A Grande Mãe anunciou que partirás amanhã, então já comecei a arrumar tuas coisas.

- Partirei? Para onde? Nada me foi dito.

- O anúncio foi feito por Alfadur, após o ritual de ontem. Ele também disse que a criança que trazes agora no ventre manterá viva nossa tradição, por isso deves ir para bem longe daqui.

Coloquei ternamente a mão sobre o ventre.

- Sim, minha irmã, esperas agora uma criança e deverão seguir sozinhas para longe do templo, que em breve deixará de existir.

Fui tomada por um misto de alegria e tristeza.

Tristeza por ter que me afastar daquelas que sempre foram minhas companheiras, do templo que sempre foi meu lar, mas alegria por ter sido agraciada pela maior das dádivas que uma fêmea pode ter: gerar uma vida.

- E os machos?

- Partiram assim que o ritual terminou...

- E com vocês, nada?

- Não, minha irmã, somente tu foste a escolhida.

Mesmo desapontada e com as dores que sentia pelo que houve não conseguia disfarçar o sentimento que nascia em mim ao recordar-me deles.

- Helya, agora descanse, a viagem de amanhã será longa...

Apertei sua mão e deitei-me novamente. Fechei os olhos e as imagens daqueles três possuindo meu corpo, ainda que de forma tão vil, me inundavam de desejo...

Todas nós derramamos lágrimas em abundância na manhã seguinte, no momento de despedir-me da vida que conhecia até então.

Fui presenteada pela Grande Mãe com uma pequena caixa repleta de moedas de ouro e um pergaminho selado, necessários, segundo ela, para que eu e a criança pudéssemos ter uma existência tranquila.

O templo, as irmãs, tudo foi deixado para trás, menos os momentos de alegria que tive junto delas e todo o conhecimento que adquiri, mas quem somos nós para irmos contra as orientações de Alfadur?

Muitos, muitos anos se passaram e agora, distante das terras gélidas onde um dia existiu nosso templo, escrevo essas memórias.

Desconheço o destino de minhas irmãs, mas meu coração não carrega tristeza, está repleto de amor, um sentimento forte e puro que só conheci ao ouvir o choro da minha menina pela primeira vez.

Hoje ela completa vinte e cinco anos e, de acordo com as palavras do pergaminho, sei que sua vida mudará, sei o que o futuro lhe reserva.

Infelizmente um futuro que Rayka deverá seguir sozinha...

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